
Textos e crônicas.
PF
Tempos difíceis e percalços diversos me obrigam a diminuir drasticamente meu ticket médio pro almoço.
Depois dessa tomada de consciência, bato no peito, respiro fundo e traço um plano de ação.
Como trabalho na Paulista, as opções são infinitas. Descartados os bons japas e churrascarias renomadas, sobrou todo o resto: uma consistente xepa representada pelos quilos, fast food e botecos.
Vou à luta.
Os restaurantes por quilo são abomináveis. Fazer fila pra comer, esperar pacientemente os indecisos e lerdos se servindo com 34 colheradas rasas de qualquer uma das dezenas de gororobas disponíveis, dividir espaço com populares espirrando perdigotos sobre a salada de batatas e ainda ter que pesar o resultado hediondo e heterogêneo no final da empreitada me lembra muito os tempos de exército, ainda que eu não tenha servido a pátria.
Os fast-food me agradam mais, mas não na hora do almoço, a menos que meu cardume de tênias solicite uma remessa de combos do dia com bacon pra dentro do meu ventre e eu tenha que abrir uma exceção. Mas procuro evitar.
Sobraram os botecos. Os deliciosos, pitorescos, democráticos, barulhentos e brasileiros botecos. Ícones do entretenimento barato, cadinhos culturais legítimos e consagrados, ilhas urbanas onde gente sofrida tira suas pausas durante o dia, estar em um boteco é mais do que resolver um problema de fome ou sede, é uma experiência. Pelo menos pra mim. Pois bem.
Depois de algumas voltas pela região, elejo um estabelecimento quase na esquina da Santos com a Pamplona. A julgar pela crosta de material indefinido presente na coifa da chapa, pelos espelhos impecavelmente manchados, pelos neons verdes da sanca do teto e pelas fotos amareladas dos pratos na testeira sobre o balcão, supõe-se que este comércio exista desde a época da ditadura militar. Por tudo isso o ambiente me atrai e entro, corajoso.
Lotado, barulhento e aconchegantemente desconfortável, o lugar tem umas 10 mesas, ricamente decoradas na clássica combinação de fórmica bege e cadeiras estofadas com courvin marrom, provavelmente também herança da era Geisel. Todas as posições, porém, tomadas por populares famintos. Sobra um lugar de banqueta em frente ao balcão de vidro, de cara com a chapa.
Uma vez instalado, sou abordado por uma atendente educada, porém ríspida e firme. Quase rude. Um tanto mal-humorada. Eu diria brava. Quiçá irritadiça. Ela me entrega um cardápio com capa de courvin marrom que combina lindamente com os estofados das cadeiras. Abro e vejo as opções. Todos os clássicos presentes: pratos executivos e comerciais, verdadeiros combos populares de sustança, com salada, arroz, feijão e alguma “mistura”, representada por bife (contra-filé) - ou - linguiça – ou - filé de frango - ou até mesmo o pragmático e não menos saboroso ovo frito.
Indeciso e sem pressa, deixo o menu de lado e peço uma Original 600 ml, que chega prontamente. Doendo de gelada, é colocada junto com o imbatível copo americano sobre um sousplat de papel semi-molhado impresso em azul pálido com os dizeres “bom-apetitie” e o desenhinho de um cozinheiro segurando um prato fumegante. Me sirvo, tomo um delicioso gole e me deixo envolver pelo ambiente dantesco e felliniano do lugar.
Em poucos segundos descubro o porquê do lugar onde decidi sentar estar vago com a casa tão cheia. Ele fica exatamente no meio da linha de tiro entre dois adversários clássicos: o cozinheiro e as atendentes. Fui posicionado no epicentro geológico do lugar, onde atritos tectônicos acontecem sem trégua. Onde gritos incessantes de pedidos do cardápio que eu acabara de ler são berrados a cada 10 segundos, sendo respondidos com pratos e travessas devolvidos quase sobre minha cabeça no mesmo intervalo de tempo. Fico fascinado com a rudeza desses gladiadores, tão competentes dentro de sua sina de matar ou morrer pelo público que veio pelo pão e circo.
Depois de 10 minutos de puro êxtase a 120 decibéis, finalmente mato minha gelada e peço a iguaria: um prato fora dos combos, muito mais caro, coisa de 16 reais fora a cerveja. Frango-ao-molho-sabe-se-Deus-de-que.
Recomendo.
Muro
Um muro sempre tem três lados
O de cá, meu e dos meus aliados
O de lá, dos meus inimigos
E o de cima, onde se equilibram os covardes
Um muro pode ser de tijolo, de bloco
De verdades, de fumaça,
De paçoca, de mousse, de merda
Mas ainda assim é um muro, basta olhar pra ele
Um muro que separa a minha verdade da sua
Que impede a visão do outro lado
E que bloqueia esse cachorro vira-lata de morder minha canela
Um muro é bom pra mijar depois de algumas cervejas
E encostar enquanto o Uber não chega
Um apoio sólido
Áspero
Duro.
Groundhog Day é o melhor filme de todos os tempos
Se fosse pra mandar uma cápsula pra Lua, com um filme apenas representando o legado dessa indústria para as gerações futuras ou extraterrestres, seria Groundhog Day.
Sempre achei, mesmo depois de assistir O Chefão I, II e III.
Mesmo depois de assistir 2001, Cidadão Kane, ET, Fight Club e Scarface.
Mesmo depois de assistir todos os Coppola, Spielberg, Scorsese, Tarantino, Kubrick, Kurosawa, Lynch, Allen, Fincher, Fellini e Polanski.
Groundhog Day é foda.
Sobre Bill Murray, melhor nem comentar. Qualquer adjetivo seria muito pouco pra ele.
É um filme que agrada a todos os públicos e idades porque é de uma simplicidade absoluta e desconcertante. Todas as cenas, sem exceção, são deliciosas e engraçadas. Todas as idades entendem as piadas. E todas as piadas são pertinentes e espetaculares.
O que faz Groundhog Day tão grandioso e definitivo, ainda que não percebido por todos, é sua mensagem metafísica. Que no início pode parecer piegas, ou até mesmo rasa, na verdade é o resumo de como essa porra toda funciona. Pelo menos aqui nesse planeta.
Quem faz merda recebe merda. Quem pesa, carrega peso. Quem procrastina, é atrasado. Quem não ama não é amado. Quem machuca é machucado. E quem não percebe nada disso por bem, vai entender pela dor. Nem que seja acordando, todos os dias em martírio, no mesmo dia e hora do ano, pra sempre.
Groundhog Day é uma obra prima. Se você não assistiu, assista.
O nome em português é Feitiço do Tempo.
Depois você me conta como foi.
Comensalismo digital
Não entendo muito bem toda essa celeuma acerca do comportamento humano nas redes sociais.
Exceto por ser mais imediato, truculento e efetivo como meio de expor opiniões, grandezas e pequenezas inerentes às pessoas desde sempre, nada mudou.
A humanidade sempre cuidou da vida alheia, só que agora a coisa se tornou muito mais rápida, eficaz e virulenta.
E essa é a graça: vivemos o privilégio de gerar sentimento, comoção, amor e ódio em tempo (sur)real. Se o publico-alvo não viu o recado de cara, a fofoca digital se encarrega de entregar os links e prints em segundos.
As redes sociais só expuseram e separaram, com mais clareza e intensidade, os trendsetters e seguros dos parasitas inseguros e biliosos.
O comensalismo segue clássico: tubarões e rêmoras, leões e hienas, homens e abutres, convivendo pelo bem do ecossistema.
Graças a Deus.
Infarto
Às vezes tenho dores no peito
Agudas, pontadas
Falta-me o ar
Arfo, aflito
A cabeça a mil pensando
Será que, finalmente, é a minha vez?
Será que é assim, tão vulgar quanto uma azia?
Será que vou ver a luz branca?
Será que Jesus tem cheiro de incenso?
Respiro fundo, com medo e coragem
Foco no braço esquerdo
Que dizem que formiga quando tudo acontece
Então olho pra ele
O braço esquerdo
Paro no triceps, grande, duro
E penso
São só gases.
Desde que o programa foi lançado, há mais de 20 anos, meu olhar sobre o Big Brother Brasil mudou do desprezo, preconceito, soberba e crítica ferrenha, passando por uma “curiosidade de transição” para agora, mais maduro e consciente, o interesse ávido e assiduidade diária. Só não cheguei ao ponto de acompanhar pelo pay-per-view, porque ainda mantenho os bons e velhos interesses de sempre, como ler, assistir os noticiários e acompanhar os canais de automobilismo, arquitetura, turismo e culinária.
Voltando aos confinamentos - nós aqui fora esperando a vacina e eles lá dentro esperando a prova do líder - desde o primeiro episódio do programa, a amostragem dos escolhidos nem sempre representou fielmente o universo da nossa sociedade.
No início optavam por colírios aspiracionais: jovens beldades carnudas e boys sarados, todos anônimos. Depois tentaram algo mais heterogêneo e palpável, na intenção de gerar mais identificação com o público: um ou outro um tanto mais feio, mais pobre, mais ignorante e um ou outro mais velho. Versões que também se mostraram falhas, favorecendo os desfavorecidos justamente por sua condição precária, o que comovia a audiência que “presenteava” os coitadinhos com um novo começo de vida.
Na tentativa de triarem amostras um pouco mais alinhadas com a realidade externa, foram afinando elencos e elegendo, ano após ano, alguns perfis esperados, outros nem tanto, ao posto de novos sub-milionários. Desde então, é muito interessante observar como a dinâmica do jogo, somada ao carisma do participante vencedor e aos valores vigentes de cada época, deram a vitória a figuras com perfis tão distintos. Do búfalo acéfalo Kleber BamBam, o caipra safo Dhomini, a pobre babá traída Cida, o príapo héterotop Diego Alemão, o lutador bad boy Marcelo Dourado, a enfermeira banguela Mara Viana, o deputado cuspidor Jean Willys, até a médica muda e sem sal Thelma Assis, cada um deles é o retrato 3x4 dos anseios do povo brasileiro naquele momento.
Este ano repetiram, em grande parte, a fórmula do ano passado, de misturar anônimos com sub-celebridades, especialmente do meio digital, para compor o pleito. Só que desta vez, na edição 21, pesaram um pouco a mão homogeneizando as “minorias oprimidas” representadas e lideradas pela estilosa, talentosa e pedante Karol Conká que, uma vez expulsa com recorde absoluto de rejeição, fez com que seu rabanho hipócrita perdesse o chão e tivesse que repensar rápido sua estratégia de jogo. Porque afinal de contas opinião e posicionamento, como tudo na vida, tem seu preço.
E pra essa turma, 1 milhão e meio é mais do que suficiente.
Reality for dummies
Bons tempos em que eu me queixava de almoçar fora.
Paguei a língua, com juros e correção:
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Você pede uma Coca Zero. O garçã pergunta se é com gelo e limão.
Você pede um Guaraná. O garçã pergunta se pode ser Kwat. Você diz que sim, ele pergunta se é com gelo e laranja. Você diz que não quer laranja, ele pergunta se é só gelado ou com gelo no copo.
Você pede uma porção de fritas. O garçã pergunta se é rústica, com chadar e bacon, só com bacon ou simples. Você pede simples. Ele pergunta se é meia porção ou porção inteira.
Você pede milk shake. O garçã pergunta se é smoothie ou milk shake mesmo.
Você confirma que é milk shake. Ele pergunta se é inteiro ou meio. Você confirma que é inteiro. Ele pergunta se é pra viagem.
Você pede um X-salada. O garçã pergunta se é com maionese à parte.
Você pede um galeto. O garçã pergunta se é desossado. Você diz que sim. Ele pergunta se é meio ou inteiro.
Você pede uma fraldinha. O garçã pergunta se o ponto é ao ponto menos sangrando, ao ponto menos, ao ponto ponto, ao ponto mais, mais pra bem passado, bem passado pra mais, bem passado moreno, bem passado noir ou carvão.
Você pede arroz. O garçã pergunta se além do arroz você quer as outras duas guarnições que acompanham o prato. Você pede creme de milho e polenta. Ele pergunta se a polenta é frita ou cozida.
Você pede creme de papaia. O garçã pergunta se é com Cassis. Você confirma o Cassis. Ele pergunta se é muito ou pouco.
Você pede sorvete. O garçã pergunta se é o sorbet de frutas ou o sorvete mesmo. Você confirma que é sorvete mesmo, de creme. Ele pergunta se pode ser de baunilha. Você confirma que pode. Ele pergunta se é com cobertura. Você confirma a cobertura. Ele pergunta se é com chantily ou sem.
Você pede café. O garçã pergunta se é coado ou de máquina. Você pede de máquina. Ele pergunta se é macchiatto ou normal. Você pede normal. Ele pergunta se é Nespresso ou Illy. Você confirma Nespresso. Ele pergunta se é Ristretto, Roma, Livanto, Capriccio ou Volluto.
Você pede a conta. O garçã pergunta se pode incluir os 10%. Você diz que sim. Então ele pergunta se quer nota fiscal paulista. Você diz que não. Então ele pergunta se é débito ou crédito. Você pede débito. Então ele pergunta se você quer a sua via. Você não quer. Então ele pergunta se você tem carro com o manobrista.
Agora é só Miojo. Em casa.